14.11.08

Hábitos corujescos

Madrugadas. Ah! Como eu gosto delas. Não fosse a necessidade de acordar bem cedo para o trabalho, passaria noites em claro com uma freqüência quase diária.

Esta noite foi assim. Não resisti. Despertado de meu sono pela ação irritante de pernilongos – benditos sejam! –, comecei meu deleite noturno com a leitura do livro A Cabana (o qual eu recomendo com muita satisfação). Depois, cansado do estilo ficção, passei a degustar de alguns petiscos especialmente preparados pelo Rubem Alves; petiscos em conserva (o que os deixa mais saborosos) no livro Ostra feliz não faz pérola.

Abatendo-me pelo insistente sono que retornara, após me alimentar de boa leitura ao som dos barulhos dos morcegos no telhado da casa, ventos fortes e portas batendo, decidi não resistir... capitulei-me e repousei outra vez... Eram 4h da madruga.

12.11.08

............................Imagine..............................

Imagine se conseguíssemos viver o Evangelho como ele realmente é.
Se perdoássemos os que nos ofendem.
Se amássemos os nossos inimigos e construíssemos pontes de reconciliação entre os que estão perdidos nos vales da inimizade.
Imagine se compartilhássemos os bens que temos – e geralmente temos muito daquilo que não necessitamos de verdade.
Imagine como o mundo seria...
Ocorreria uma revolução fantástica se voltássemos os nossos olhos – e TAMBÉM AS NOSSAS MÃOS – para os pobres, os machucados, os oprimidos deste mundo.
Talvez não houvesse fome, talvez os homens não se auto-destruíssem por tantas mágoas e opressões das mais diversas.
Imagine se nossos cultos não fossem apenas reencontros de fim de semana.
Se os membros pudessem participar mais ativamente das celebrações, e não apenas com o “amém”, o canto e as palmas ao fim de cada canção.
Imagine se levássemos a sério a mensagem bíblica que afirma sermos todos nós possuidores de dons especiais; dons que só são úteis quando utilizados para o bem do próximo.
Seríamos verdadeiramente um corpo na teoria e na prática, não acha?
Bem, talvez se compreendêssemos melhor o que é ser Igreja e o que é o Reino, tudo isso seria realmente possível.
Se nós não estivéssemos tão ocupados com as coisas temporais, coisas tão passageiras... e com nossas glórias pessoais, é bem provável que nos empenharíamos de tal modo a alcançar estes alvos que, com o poder de Jesus, realizaríamos coisas grandiosas em nosso tempo!

Sexualidade

11.11.08

Hoje



Outros vídeos do Rob Bell estão disponíveis no You Tube. Vale a pena assistir todos!

Por que as mulhes odeiam futebol



Fonte: Pavablog - o homem das pimentas!

7.11.08

Quem quer dinheirooooo?

Por Jacqueline Emerich

Um dia desses liguei a TV enquanto estendia roupas na área de serviço da minha casa. Sem saber bem em que canal o aparelho estava sintonizado, vi de relance uma platéia enorme, batendo palminhas ritmicamente. Por um breve momento pensei estar diante do programa de auditório Topa Tudo por Dinheiro, que, aliás, nem sei se ainda está no ar.

Logo vi que não era o famoso programa. Não era o Sílvio nem o Lombardi, tampouco havia aviõzinhos de dinheiro voando sobre a cabeça da mulherada eufórica. Era mais um programa evangélico apresentado pelos vendedores da fé. Mas não era um culto, não! Era um show... Sim! Um show da fé!

As palminhas acertadas que vi no início logo fizeram sentido – eram os fiéis cantando as canções do pastor. Mas o que me chamou atenção e me fez parar o serviço doméstico foi o momento dos testemunhos: um irmãozinho queria testemunhar sobre a cura que Jesus lhe proporcionara. Ele bem que tentou, mas não conseguiu terminar. O missionário logo o apressou para a parte mais interessante – a fidelidade de Deus depois de uma rechonchuda oferta para a igreja (o famoso sacrifício).

A verdade é que já está ficando chato falar sobre esse tal de comércio da fé. Está tão comum e banal as presepadas desses charlatões travestidos de bispos e missionários que criticá-los já não me anima tanto como outrora.

Confesso que estou meio enjoada ao escrever estas palavras, mas o fato é: vomitar algumas idéias numa página de internet é mais curador do que permanecer com o estômago embrulhado. Se fosse propaganda de sal de frutas, eu diria: é Alívio já!

Bem, depois de assistir ao Topa tudo por dinh... ops! Quer dizer, ao Show da Fé, bisbilhotei pela internet a casa de certo bispo canastrão e, admito, minha ira duplicou-se! Não, não foi a mistureba de estilos da casa que me irou - estilo normando, barroco, neoclássico e um pouquinho de rococó (se bem que, como arquiteta, isso já seria motivo suficiente para me nausear).

O que me ferveu o sangue foi ver incrustado nos móveis, no linho fino das cortinas, no lustre da sala e na cama colossal de veludo vermelho da suíte de 100m² do bispo Macedo o dinheiro de um povo cego. Sim, cego!

Às vezes me pego em dúvidas quanto ao tipo de sentimento a se ter com essa gente: não sei se sinto pena ou raiva.

Será que está tão difícil assim distinguir o evangelho sadio - o Evangelho de Jesus Cristo - desse evangelho doente e aprisionador que tem sido pregado sem nenhuma vergonha, com a cara mais lavada do mundo, pelos lavadores de dinheiro do mundo gospel? Será que está tão obscuro assim que ninguém vê a exploração da própria fé?

Infelizmente a resposta é SIM. Sim, está difícil distinguir esses dois evangelhos. Por quê? Bem, arrisco-me a dois palpites. O primeiro é que a maioria do povo que vive esse evangelho doente e de barganhas não está interessada em servir ao Rei, muito menos a tomar para si a cruz que Jesus exigiu de seus discípulos.

Estão mais interessados em servir aos seus próprios interesses – querem a “benção” material. Daí o interesse em permanecer num evangelho cor-de-rosa, no qual mansão, carro e poupança gorda é que é sinal de benção divina, e o sofrimento é coisa do diabo, o câncer é fruto de algum pecado e o desemprego é conseqüência da infidelidade nos dízimos e nas ofertas. (Neste momento estou dando tchau pra mensagem de sofrimento e perseguição da carta de Pedro aos forasteiros da Dispersão).

O segundo palpite é que nem mesmo esses tutores (ou pais-de-santo? Sim... porque são tantas as macumbas gospel!) entenderam a mensagem do Evangelho. E, se o fizeram e ainda assim continuam a armar esse circo em torno do cristianismo, é porque gostam mesmo é de encenar e tripudiar a fé dos outros.

Como cristãos precisamos ter compaixão não só pelas “almas perdidas”, mas também pelas “almas escondidas”. Almas escondidas em templos megalomaníacos, escondidas em envelopes de dízimos, escondidas em casas luxuosas, em carros importados. E ainda interceder pelos machucados de todo esse teatro grego, aqueles que ficam traumatizados por esse abuso espiritual e acabam tendo ojeriza pelo Evangelho sadio de Jesus.

Jacqueline é estudante de Arquitetura na UFMT, membro do grupo da Aliança Bíblica Universitária de Cuiabá-MT e namorada deste blogueiro.

3.11.08

Essa TPM não pega em pobre

Quando eu disse na postagem anterior que a mensagem da Teologia da Prosperidade Megalomaníaca dá resultados e que ela é eficiente mas apenas em parte, eu estava levando em consideração aos inúmeros decepcionados que surgem dia após dia no cenário religioso em que esta ideologia é pregada. Isso porque, se no caso mencionado no primeiro texto o camarada citado consegue se reerguer da crise que enfrentava, uma grande maioria não tem a mesma sorte. E é isso que vamos abordar agora. Qual o motivo?

Bem, como já afirmei, o êxito da mensagem da Teologia da Prosperidade não é resultante de milagre algum. É na verdade uma conseqüência lógica de um processo de ação e reação; um sujeito com determinado nível de vida está em crise, quando decide ingressar a um grupo religioso que dá ênfase exacerbada em palestras de motivação e sucesso.

Ora, esse indivíduo, ainda que em crise, desfruta (ou já desfrutou) de condições e de uma qualidade de vida distintas da grande massa que freqüenta tais grupos religiosos. Trocando tudo em miúdos (para melhor exclarecer), podemos dizer sem mais delongas que há dois tipos de pessoas que buscam solução para seus problemas financeiros nas “igrejas da prosperidade”: aquelas pessoas que advém da classe média e alta e aqueles que são realmente pobres.

O primeiro grupo, com um pouco da disciplina instigada pelos “pastores”, e com esforço, garra e muita força de vontade (e não raras vezes algumas pitadas de ganância), conseguirão se reerguer de suas más condições. Tudo em conformidade com o que anteriormente já foi dito na postagem abaixo. E isso se dá justamente porque, estando em más condições, eles ainda estão em uma situação mais favorável que os verdadeiramente pobres. Geralmente têm estudo, profissão definida, capital, são proprietários de bens e empresas.

Agora tratemos daquele sofrido trabalhador que vende algodões-doces na feira de domingo. Ele mora num bairro periférico, não tem estudo, não tem profissão definida, durante a semana cata latinhas para a reciclagem e tem vários filhos para sustentar. Ele também se alegra e fica muito empolgado quando os “pastores da prosperidade” anunciam que Deus pode fazer com ele o que fez com Davi e outros personagens bíblicos.

Durante os dias da semana, segundo as instruções que recebeu no culto de domingo, sai repetindo frases como: “Agora no campo, amanhã no trono!” Isso em alusão à obra de Deus na vida de Davi, tirando-o do serviço de pastor de ovelhas para ser o rei de Israel.

Vamos ser lógicos e respeitar o bom-senso: esse cara só vai ser rico no dia de São Nunca.

Puxa, parece pessimista demais, e você muito possivelmente deve conhecer alguém que saiu de condições piores que esta e se tornou razoavelmente bem de vida, influente e cheio de sucesso profissional. Não duvido que tal coisa possa acontecer. Mas é fato que ocorre com um entre mil. É coisa rara.

Para não dizer que falo do que não sei. Posso dizer que tenho alguns dentre os meus familiares que muito já se iludiram com estas falsas esperanças. E não se enriqueceram. Muito pelo contrário, tornando-se consumistas, não conseguem acumular bens. Não agem de forma previdente com suas finanças e não tem garantias para o futuro. Ora, normal! Sim, muito normal para quem faz parte dos discípulos da Teologia da Prosperidade.

Não se enriquecem, mas assim como todos os adeptos dessa mensagem, tornaram-se megalomaníacos, triunfalistas e consumistas natos. Em suas bocas não raras vezes estão os discursos sensacionalistas vomitados diretamente dos templos e dos programas de TV das empresas da fé.

Não estou afirmando com estas palavras que não acredito na possibilidade de ascensão social, de que qualquer um pode alcançar êxitos com a força de seu trabalho e inteligência. Não é isso! Apenas estou alertando para a sedução perversa do discurso manipulador dos “profetas” da prosperidade megalomaníaca.

E mais, digo o que digo porque, dentre outras coisas, sei que Jesus não se comprometeu em tornar-nos ricos; muito pelo contrário, sempre sugeriu que, para servirmos a ele, deveríamos nos fazer pobres. Incitou-nos a compartilhar tudo o que temos, a fim de que nada seja tido apenas por nosso, mas sim de todos.

Enfim, essa TPM definitivamente não pega em pobre...

29.10.08

Teologia da Prosperidade Megalomaníaca (TPM)

É claro que a Teologia da Prosperidade dá resultados. E sua mensagem é eficiente, em parte. Muitos dos seus adeptos realmente obtêm êxito nas metas que almejam alcançar. As mensagens de motivação e sucesso dos “pastores” conseguem penetrar o coração dos ouvintes e incutir neles um ânimo novo. Suas energias mentais e emocionais parecem recarregar e passam a ser possuídos por uma vitalidade surpreendente.

Só que não há nada de milagre nisso. Apenas lógica. Pense comigo: o cara era um viciado em drogas, sexo e baladas, se acabava em jogos, apostas, ou qualquer outra atividade dispendiosa e degradante. Daí seu negócio começa a dar sinais de decadência, a falência bate à porta. Desespero, crises emocionais, familiares etc. e tal, tudo isso se torna freqüente em sua vida. Daí numa bela madrugada, o sujeito, com uma insônia torturante e aquela aparência desgrenhada de gente que está no "fundo do poço", assiste ao “tele vendedor da fé” dizer que haverá uma “poderosa” concentração de fé voltada para os empresários.

Imagine, ele não pensa duas vezes. Na próxima segunda está lá. Bem, esse cara desregrado, de comportamento cheio de vícios, um verdadeiro problemático, passa a freqüentar tais reuniões e se converte à fé que lhe garante reconquistar tudo o que perdeu, e não só isso: sete vezes mais!

Como um bom converso, ele passará a dar atenção às regras e padrões de condutas do seu novo grupo de convívio. Deixa de gastar com mulheres, bebidas, drogas, baladas, e outras extravagâncias mais. Sua obrigação financeira primordial agora é o dízimo e as demais ofertas que a instituição religiosa lhe impõe. E como quem faz sobrar sempre tem mais... ele enfim prospera.

Até aqui não há problema algum. Fora a motivação do sujeito anteriormente desgraçado para buscar ajuda divina – uma total barganha!

Ok. Só que se engana quem pensa que a mensagem da Teologia da Prosperidade resulta apenas nisso. O mesmo indivíduo será tomado agora por um desejo incontrolável por conquistar mais e mais, por consumir mais e mais, o ter (e não o ser) será o reflexo e o sinal da ação de Deus em sua vida.

Em outras palavras, esta Teologia fomenta uma das piores doenças da alma: a megalomania (mania de grandeza). Quanto mais, melhor; quanto maior, também melhor...

Essa não é a prosperidade que Deus quer ministrar a seus filhos, a lógica deste pensamento é conquistar por conquistar, alcançar para satisfazer o ego eternamente insatisfeito do ser humano, ganhar sempre para preencher o vazio do peito com a falsa idéia de que Deus está neste negócio porque se está prosperando.

Ora, ser próspero é desejo meu e também o seu. E não há mal nisso. Prosperidade se alcança com trabalho, esforço, previdência e prudência na administração das finanças. É alcançar boas condições de vida, provisão do lar, tempo para lazer, alegria e satisfação em poder desfrutar de tudo isso; e sem precisar viver inquieto pelo que se deve conquistar amanhã e nem se entregar ao incontrolável desejo consumista que impera em nosso tempo. A verdadeira prosperidade é provisão, e não tem nada a ver com a mania de grandeza e o desejo execrável de alcançar mais e mais poder.

Não é necessário dizer que a Teologia da Prosperidade é filha do capitalismo selvagem que está detonando o mundo a passos largos. E quem se rende a ela passa a encarnar os traços terríveis do comportamento megalomaníaco.

Para comprovar tal mania de grandeza – essa doença perversa –, basta ligar a TV num daqueles programas que exploram financeiramente a fé. Neles poder-se-á ouvir os testemunhos dos fieis, cada um mais megalomaníaco que o outro. Dificilmente contando algo que diga respeito à sociedade e que reflita a ação de Deus por meio de suas vidas para o bem comum. Não, a megalomania vem sempre acompanhada de um narcisismo agudo. O "eu" sempre ocupando do primeiro ao último lugar dos compartimentos da vida do sujeito.

A propósito, você conhece a casa do Edir Macedo?... Pesquise e verá!
Ele sofre de TPM.


Não deixe de ler: Igreja Universal do Reino do Macedo

24.10.08

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Será?

Ontem à noite assisti um debate no Superpop (programa “instrutivíssimo”) sobre as personalidades famosas – a maioria artistas – que se candidataram nas últimas eleições. Dentre os participantes do programa, Sérgio Mallandro e Gretchen eram os mais conhecidos – o outro (ou será outra?) participante era um transformista supostamente bastante conhecido em São Paulo.

A questão é que tanto o Sérgio Mallandro quanto a Gretchen se esmeraram para transmitir uma idéia dicotômica a respeito de suas personalidades. Gretchen foi a mais questionada pelos participantes do programa devido à sua imagem de mulher sensual, insinuante e desinibida (ao ponto de pousar nua e realizar filme pornô).

Tentaram afirmar que uma coisa era o cidadão Sérgio Mallandro e a cidadã Grectin Gretchen e outra coisa totalmente distinta era o artista Sérgio Mallandro e a artista Gretchen.

Daí hoje sedo entrei no site da Uol e li sobre o lançameto do novo cd da Beyoncé, a notícia informava que a cantora adotara um pseudônimo neste seu novo disco para, segundo ela, proteger quem ela realmente é.

Nas palavras dela: “Sasha Fierce é o lado mais divertido, sensual, agressivo, sincero e glamuroso que aparece quando estou trabalhando e quando estou no palco”.

Só me vem uma pergunta: será que esse pessoal tem transtorno bipolar, distúrbio de personalidade, ou outra coisa do tipo?

Ora, somos indivíduos, pessoas, somos únicos e indivisíveis, e tudo aquilo que fazemos reflete sem dúvida alguma aquilo que somos.

O mais é estória pra boi dormir...

Resposta ao Jorge Eduardo, sobre os comentários à postagem "Nossa Condição"

Olá, caro Jorge!

Para mim não há o que acrescentar, este suposto “outro tipo” que você mencionou, para mim, está inserido no tipo A, no primeiro tipo que eu elenquei.

Isto porque quis aqui apenas lançar uma luz, plantar uma semente de discussão acerca da nossa condição enquanto seres humanos.

Concordo plenamente que não devemos nos conformar com o pecado, contudo seria ingenuidade nossa ou até mesmo pretensão besta e orgulhosa nos acharmos sem pecado ou perfeitos porque somos cristãos. Não, não é essa mensagem do Evangelho, ela é na verdade um convite à perfeição, um chamado para trilhar o caminho que nos levará a ser plenamente humanos em Cristo e à sua imagem e semelhança, à sua estatura. Enquanto estivermos aqui, seremos pecadores.

Reconhecer-se em desespero (em estado de pecaminosidade) é reconhecer-se dependente de Deus e atribuir a ele, e somente a ele, nossa salvação.

“Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra...”, recorda-se?

“Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós”, disse João (I Jo 1.8).

Assumir não significa apenas “tomar para si” e “sobre si”, também significa “reconhecer”. Eu assumo que fui eu quem pecou!... Assumo ter sido eu o autor deste texto!... E, claro, tomo para mim a responsabilidade das palavras que aqui proferi.

Tanto você quanto eu sabemos que, caso não haja este tipo de explicação no dicionário, as palavras têm os significados que damos a elas...

Entende?

O caminho da santidade passe pelo reconhecimento de nosso estado, nossa condição. Assim como o caminho da cura passa pela aceitação da doença. Não aceite você que tem problemas em suas amídalas e nem vá ao médico buscar solução pra você ver no que vai dar... Sua inflamação não se resolverá, você não alcançará a cura para este mal... Assuma que está doente das amídalas e estará mais perto da cura do que já esteve antes de reconhecê-lo.

Simples como dois e dois são quatro.

Abraços fraternos.
_________________________

Outras leituras: A música da Zélia e a corrente idéia de pecado

22.10.08

Nossa condição

Existem simplesmente três tipos de pessoas no mundo:

A) Aqueles que são pecadores e são totalmente cônscios de tal fato; por isso mesmo assumidos.

B) Os que são pecadores, conscientes disso, mas que se comportam como se não o fossem.

C) Aqueles que são pecadores, porém não têm consciência plena disso.

Como diria Kierkegaard, ambos os três estão desespero. O que diferencia o primeiro de todos os outros é que, por assumir-se pecador e em desespero, ele está mais perto da redenção do seu ser do que todos os outros.

Encontro-me mais aliviado por saber (ter a consciência) que estou em pleno desespero...

13.10.08

Não à pornografia na TV brasileira!


Parte I

Pedro Cardoso fez um discurso polêmico no lançamento do longa-metragem Todo Mundo Tem Problemas Sexuais, de Domingos de Oliveira, na noite desta quarta-feira, 8, no Festival do Rio.


Parte II

O discurso do Pedro pode ser lido na íntegra no seu blog Todo mundo tem problemas sexuais.

10.10.08

Confesso que...

Confesso que quis reformular o texto abaixo e escrever algo sobre os papagaios de púlpito (outra modalidade de líder religioso). Mas desisti. Não sei bem o porquê, mas acho que tive medo de que minha carnalidade tomasse conta de mim e eu começasse a dar nomes aos bois, digo, aos papagaios (e até a xingá-los); e certamente também iria mencionar as marcas de “igrejas” as quais têm programas na TV a cabo... Não estou seguro de que iria fazer isso com a devida sobriedade.

E mais: gosto tanto de papagaios – eles são tão engraçadinhos – pode ser até uma injustiça jogar os coitadinhos no meio disso tudo.

Já que eu estou meio travado pra falar do assunto, deixo apenas uma dica: não perca seu tempo, não assista esses programas religiosos da TV acabo. Pra que ser masoquista, hum? Você num sabe que vai ficar irado com tudo mesmo?

Os faladores do púlpito

É sempre assim que acontece: os líderes da igreja percebem que determinado irmãozinho é bom com as palavras, não se envergonha quando fala em público e tem certa ousadia para defender suas idéias com vivacidade; daí rapidamente o elegem como candidato ao ministério pastoral.

Traduzindo tudo isso em poucas palavras, basta ser falante para ser tachado de “futuro pastor”. Conhecimento bíblico... talvez esse item já não seja tão relevante.

Esse tem sido um dos principais motivos pelos quais a Igreja tem falhado na sua tarefa discipulado. Pastores que não são pastores não capacitam membros para pastorear; pior ainda, esses membros nem são pastoreados pelos supostos pastores – o que os torna não somente incapazes de pastorear os irmãos mais novos na fé, mas também faz deles pessoas fragilizadas, carentes de afeto e comunhão, cristãos raquíticos em sua espiritualidade, seres humanos que não caminham rumo à maturidade do ser.

A verdade é que grande parte dos pastores que conhecemos não são pastores; são apenas faladores. Não que não possuam talentos e nem dons espirituais; mas que, dentre todos os talentos e dons que possuem, justamente o dom pastoral é o que lhes falta. São tudo, menos pastores – no sentido mais essencial da palavra.

Alguns podem até realmente ser vocacionados ao ministério pastoral, mas devido a essa tradição de formação de faladores do púlpito, estes não aprenderam a desenvolver seu dom; seus mestres não lhes ofereceram direcionamento espiritual adequado à sua vocação.

A ironia é curiosa. O termo pastor advem da figura prosaica do antigo ofício de pastor de ovelhas. Ora, onde está a ironia? É simples, para se exercer tal ofício a palavra é bem menos importante que o olhar atencioso, o cuidado diligente, coragem amorosa e a sabedoria nascida da própria experiência pastoral, para se encontrar os melhores pastos e preservar a saúde e bem estar das pequenas ovelhas.

Os pastores de hoje já não tem como paradigma esta figura. Sua prática ministerial está longe de se assemelhar à de um campesino pastor de ovelhas. Talvez a figura de um animador de TV ou a de um tele-vendedor lhes sejam mais inspiradoras. Com certeza, em termos de analogia, são as mais apropriadas para uma boa comparação a respeito da prática pastoral nas igrejas.

“Eu sou o bom pastor; e o bom pastor dá a vida pelas ovelhas”.
Jesus de Nazaré

Leia também: Os pastores e padres do Orkut e MSN

2.10.08

Rock"n"Roll Forever!


Fonte:Pavablog

30.9.08

Falou e disse, bom velhinho!!!


"Minha esperança é que, no futuro, líderes evangélicos incluam em sua agenda social tópicos essenciais, embora controvertidos, como alterações climáticas, erradicação da pobreza, fim das armas de destruição em massa, além de reagir de forma correta à pandemia da AIDS, defendendo os direitos humanos de mulheres e crianças em todas as culturas. Espero que nossa agenda não permaneça tão limitada quanto é hoje."

John Stott, em entrevista à Cristianismo Hoje.

24.9.08

A propósito das eleições

Decálogo Voto Ético

I – O voto é intransferível e inegociável. Com ele o cristão expressa sua consciência como cidadão. Por isso, o voto precisa refletir a compreensão que o cristão tem de seu País. Estado e Município;

II – O cristão não deve violar a sua consciência política. Ele não deve negar sua maneira de ver a realidade social, mesmo que um líder da igreja tente conduzir o voto da comunidade numa outra direção;

III – Os pastores e líderes têm obrigação de orientar os fiéis sobre como votar com ética e com discernimento. No entanto, devem evitar transformar o processo de elucidação política num projeto de manipulação e indução político-partidário;

IV – Os líderes evangélicos devem ser lúcidos e democráticos. Portanto, melhor do que indicar em quem a comunidade deve votar, é organizar debates multipartidários, nos quais, simultânea ou alternadamente, os vários representantes de correntes políticas possam ser ouvidos sem preconceitos;

V – A diversidade social, econômica e ideológica que caracteriza a igreja evangélica no Brasil, deve levar os pastores a não tentarem conduzir processos político-partidários dentro da igreja, sob pena de que, em assim fazendo, eles dividam a comunidade em diversos partidos;

VI – Nenhum cristão deve se sentir obrigado a votar em um candidato pelo simples fato de ele se confessar cristão evangélico. Antes disso, os evangélicos devem discernir se os candidatos ditos cristãos, são pessoas lúcidas e comprometidas com as causas de justiça e da verdade. E mais: é fundamental que o candidato evangélico queira se eleger para propósitos maiores do que apenas defender os interesses que passam também pela dimensão política. Todavia, é mesquinho e pequeno demais pretender eleger alguém apenas para defender interesses restritos às causas temporais da igreja. Um político evangélico tem que ser, sobretudo, um evangélico na política e não apenas um “despachante” de Igrejas;

VII – Os fins não justificam os meios. Portanto, o eleitor cristão não deve jamais aceitar a desculpa de que um político evangélico votou de determinada maneira, apenas porque obteve a promessa de que, em fazendo assim, ele conseguirá alguns benefícios para a igreja, sejam rádios, concessões de TV, terrenos para templos, linhas de crédito bancário, propriedades ou outros “trocos”, ainda que menores. Conquanto todos assumamos que nos bastidores da política haja acordos e composições de interesses, não se pode, entretanto, admitir que tais “acertos” impliquem na prostituição da consciência de um cristão, mesmo que a “recompensa seja, aparentemente, muito boa para a expansão da causa evangélica. Afinal, Jesus não aceitou ganhar os “reinos deste mundo” por quaisquer meios. Ele preferiu o caminho da cruz;

VIII – Os eleitores evangélicos devem votar baseados em programas de governo, e não apenas em função de “boatos” do tipo: “O candidato tal é ateu”; ou: “O fulano vai fechar as igrejas”. Ou o sicrano não vai dar nada aos evangélicos”; ou ainda: “O beltrano é bom porque dará muito para os evangélicos”. É bom saber que a Constituição do país não dá a quem quer que seja, o poder de limitar a liberdade religiosa de qualquer grupo. Além disso, é válido observar que aqueles que espalham tais boatos, quase sempre, têm a intenção de induzir os votos dos eleitores assustados e impressionados, na direção de um candidato com o qual estejam comprometidos;

IX – Sempre que um eleitor evangélico estiver diante de um impasse do tipo: “o candidato evangélico é ótimo, mas seu partido não é o que eu gosto”, é de bom alvitre que, ainda assim, se dê um “voto de confiança” a esse irmãos na fé, desde que ele tenha as qualificações para o cargo. A fé deve ser prioritária às simpatias ideológico-partidárias.

X – Nenhum eleitor evangélico deve se sentir culpado por ter opinião política diferente da de seu pastor ou líder espiritual. O pastor deve ser obedecido em tudo aquilo que ele ensina sobre a Palavra e Deus, de acordo com ela. No entanto, no âmbito político, a opinião do pastor deve ser ouvida apenas como a palavra de um cidadão, e não como uma profecia divina”.

Fonte: Caio Fábio

Leia também: Caciquismo Evangélico

6.9.08

Ordenação feminina

Não estou muito afim de discussões nestes dias – inda mais aquelas que se prolongam, prolongam, prolongam, bem... já sabemos, e não têm fim! Sem contar que o grande problema dos embates ocorrentes em qualquer lugar e sobre qualquer assunto é que, na maioria das vezes e para nossa infelicidade, nunca nos damos conta dos fatores decisivos que permeiam o debate.

O orgulho, o preconceito, nossas inclinações oriundas de nosso psiquismo (nossas manias, disfunções, traumas, etc.), tudo isso influencia uma discussão. E quando os debatedores não os levam em conta, a parcialidade impera, solapando a sensatez e a sobriedade imprescindíveis para que se encontre soluções razoáveis e conclusões saudáveis.

Uma questão suscitada outro dia – e eu estava presente – fora a legitimidade da ordenação feminina. Ora, um ponto ainda muito controvertido entre os cristãos de muitas denominações. Muitos aprovam; outros tantos não!

Para não me delongar, não vou citar versículos, não vou lançar mão de exemplos bíblicos de liderança feminina ou mesmo argumentar sobre a falta dela; no momento só tenho uma pergunta muito básica a fazer:

Porventura os dons citados nas cartas apostólicas de Paulo estariam restringidos apenas aos homens daquelas igrejas? Em outras palavras, será que somente os homens receberam o privilégio de serem agraciados com dons espirituais, ministérios, funções no corpo de Cristo? (Ou seja, não há mulheres com dom pastoral, de ensino, de evangelista, de serviço, cura e outros mais?).

Penso que a resposta que dermos a este questionamento servirá de base para a resposta que doravante daremos à questão da legitimidade da ordenação feminina.

Aprendendo com Adélia

O meu prazer nos poemas da Adélia Prado está na forma com que ela vê as coisas do dia-a-dia. A perplexidade diante do comum, do ordinário, a surpresa em relação às ocorrências aparentemente mais bobas da vida.

Algumas coisas só comprovamos quando vivemos determinadas experiências. Estar longe de casa é uma destas experiências que me fizeram comprovar que a Adélia sempre esteve certa no seu jeito de ver a vida.

Morando hoje bem longe da minha casa, fico me recordando de como coisas tão singelas eram tão saborosas. E daí me bate aquela saudade danada. Meu coração pulsa mais forte e meus olhos ficam marejados. De peito apertado, posso dizer que tudo me faz muita falta.

Tudo o quê? Bem, posso começar pelas manhãs. Ah, as manhãs em minha cidade são fresquinhas (diferente das manhãs aqui no Mato Grosso, onde logo nas primeiras horas o dia já está quente), o sol entrava vagarosamente pela janela do meu quarto e ainda assim eu me deliciava com o frescor do dia que nascia. E a bagunça da vida em família?... Ah, até isso era bom. Hoje vivo só numa casa enorme, e mal posso esperar pelo dia em que voltarei a ter contato com o fuzuê da vida familiar cotidiana. O calor do abraço dos pais, a voz suave da minha mãe me dizendo “boa noite!” antes de dormir e até mesmo as briguinhas bobas que surgem vez e outra. Tudo isso eu quero outra vez.

E a comida?! Não encontrei ainda por essas bandas alguém com uma mão tão acertada para a cozinha quanto a de meu pai. Acho que se juntou tudo: o amor pela culinária, o dom da mineiridade, aquele gênio todo disciplinado, e pronto... saiu-me um chefe de cozinha de mão cheia. E agora quem sofre sou eu, que acabei muito mal acostumando com aquela comidinha maravilhosa.

Ah, a feira de domingo, o sotaque da roça, o jeito caipira de conversar encontrado em todos os lugares que eu fosse, a pamonha saborosa, o pastel de farinha de milho que só encontro lá em Pouso Alegre; e, claro, não posso deixar de lado o delicioso virado de banana com queijo. Bem, a vida é assim mesmo! É cheia de partidas, rupturas, dores e saudades. Por isso eu pretendo seguir adiante como Adélia Prado e aproveitar as coisas mais bobas dos meus dias onde quer que eu esteja. E isso pra que mais tarde eu não me arrependa profundamente por não ter desfrutado da vida.

Sim, sou grato a Deus por cada momento que vivi até aqui, e sei que provei cada dia com alegria, que tentei aproveitar de tudo da melhor forma possível. Minha saudade não tem fraguimentos de remorso, não! Ela não é reflexo de quem deixou a vida passar e não desfrutou dela. Minha saudade é apenas desejo de retorno, esperança fervorosa reencontros.

Esse é meu conselho: não deixem de ler Adélia Prado e de aprender com ela as melhores formas de viver o dia!

Ah, antes um pequeno aperitivo precedendo a sua refeição literária com os escritos da Adélia:

Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Amor Feinho

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

3.9.08

Em defesa do ócio

Já me cansei de ouvir que mente vazia é oficina do diabo. Esse ditado até já fez muito sentido para mim. Hoje nem tanto, no atual momento que vivo tenho aprendido que mente vazia abre espaço para criatividade.

Tenho trabalhado bastante, durante a semana e às vezes nos finais de semana também. Sempre há uma pendência a ser resolvida. De forma que, assim como em outros tempos em que já havia vivenciado circunstâncias parecidas, escrever me tem sido tarefa difícil. Isso porque, mesmo quando não estou envolvido com o trabalho, penso nele; e quando nem estou trabalhando nem pensando no trabalho, estou cansado demais para brincar com as idéias.

De forma que vez e outra preciso mesmo é de folga, de inatividade; só com a cabeça vazia é que a gente consegue variar, fugir da rotina. Somente aqueles que sofrem da inquietação gerada pela ociosidade é que podem se dar ao luxo de ter "iluminações" criativas. O ato de criação se dá assim: mente desocupada, depois inquietação, e, por fim, produção.

Esse texto, que mais se parece com uma tentativa tácita de justificar a inércia deste blog, é na verdade o meu manifesto de que “mente vazia é oficina de produção criativa”. E está dito!

Aí vai então minha sugestão: trabalhe, trabalhe bastante! Mas não deixe de se ocupar com o nada, com o ócio, tire momentos e dias para exercitar a vagabundagem criativa!

20.8.08

Explicando a ausência

Se este blog fosse uma casa real, certamente estaria cheio de teias de aranha, traças, sujo e malcheiroso. Sorte minha que não é; é apenas uma casa virtual!

Pois bem, ainda que pouca gente visite este espaço (inda mais agora que anda totalmente parado), devo algumas explicações – e vou dá-las.

Pra quem ainda não sabe, mudei-me do sul de Minas para o Mato Grosso. É, isso mesmo! Motivos? Os motivos foram empregatícios e, claro, "namoratícios"!

Minha namorada vive em Cuiabá; estuda lá. E sua família reside em Tangará da Serra, pequena cidade próxima a Cuiabá. E é nesta cidade que agora me encontro. Estou trabalhando na parte administrativa de uma empresa local e tentando me adaptar à minha nova realidade (morar fora, ficar mais perto da namorada, emprego novo, igreja e amigos novos).

No mais, tudo anda bem – namoro, vida profissional e, ainda que meia boca, a vida espiritual.

Embora a vontade de encerrar este espaço seja grande. Não o farei, pelo menos por hora. Isso porque corro o risco de não ceder à boa tentação da escrita. E caindo eu neste doce “pecado”, onde postaria meus textos?...

É isso! Quem se lembrar e se interessar, coloque meu nome em suas orações.

Abraços fraternos!

11.8.08

Sobre sapos e príncipes

Por Rubem Alves


Muitos e muitos anos atrás, antes do asfalto, quando a rodovia Fernão Dias ou era um mar de pó ou um mar de lama, as viagens eram aventuras. Eu morava no interior de Minas e o jeito de vir a Campinas para ver a namorada era arranjar carona em algum caminhão. Pois foi numa destas vezes que o motorista, delicadamente, para início de uma conversa que prometia ser muito longa, me perguntou: “E o que é que você faz?” Eu poderia ter dito simplesmente: “Sou professor.” Isto ele entenderia perfeitamente, pois já havia freqüentado escolas, sabia muitas coisas sobre professores, e passaria então a contar de suas proezas na aritmética e suas dificuldades com a língua pátria. Mas eu, inexperiente e tolo, e para dar um ar de importância, respondi: “Sou professor de filosofia...” O rosto do motorista se iluminou num largo sorriso. “Até que enfim”, ele disse. “Faz anos que eu quero saber o que é filosofia e até hoje não encontrei ninguém que me explique. Mas hoje tenho a sorte de ter um professor de filosofia como companheiro de viagem. Hoje vou ter a explicação. Afinal de contas, o que é filosofia?”

Não tenho memória alguma do que lhe disse como inútil explicação. Mas o seu sorriso me volta sempre que revelo a alguém que sou psicanalista. Porque inevitavelmente vem a mesma pergunta: “E o que é psicanálise?” Os mais sabidos, que já ouviram ou leram sobre o assunto, dispensam introduções e vão logo ao exame de posições. “E qual é a linha que o senhor segue?” Me dá logo vontade de dizer que prefiro as curvas às retas – no que não estaria sendo infiel ao espírito da psicanálise, onde a curva é sempre o caminho mais curto entre dois pontos. Mas sei que não entenderiam, pois o que querem saber é se sou freudiano, kleiniano, bioniano, junguiano, lacaiano, etc, etc. Acontece que este não é o meu jeito. Preferindo as curvas às retas, sigo o conselho de Guimarães Rosa: só dou respostas para perguntas que ninguém nunca perguntou. E assim, meio num estilo oriental meio num estilo evangélico, conto uma estória:

“Era uma vez um príncipe de voz maravilhosa que encantava a todas as criaturas que o ouviam. Seu canto era tão belo que seduziu até a bruxa que morava na floresta negra e que por ele também se apaixonou. Mas, diferente de todos os outros, que se sentiam felizes só de ouvir, ela resolveu cantar também. Que lindo dueto faremos, ela pensou. E logo se pôs a cantar. Acontece, entretanto, que bruxas não conseguem cantar afinado. Bastava que ela abrisse a boca para que dela saíssem os sons mais bizarros, que soavam como o coaxar de sapos e rãs. A vaia foi geral. A bruxa se encheu de uma inveja raivosa e lançou contra ele o mais terrível dos feitiços: Se não posso cantar como você canta, farei com que você cante como eu canto. E o príncipe foi transformado num sapo. Envergonhado de sua nova forma, ele fugiu e se escondeu no fundo da lagoa, onde moravam os sapos e rãs. Ele ficou em tudo parecido aos batráquios. Menos numa coisa. Continuou a cantar tão bonito quanto sempre cantara. Mas desta vez quem não gostou do canto do novo sapo foram os sapos e as rãs que só sabiam coaxar. O canto novo soava aos seus ouvidos como coisa de outro mundo, que perturbava a concordância de sua monotonia sapal. Severos, advertiram: Quem mora com rãs e sapos tem de coaxar como rãs e sapos. O príncipe-sapo fez cessar o seu canto e não teve alternativas: teve de aprender a coaxar como todos os outros faziam. E tanto repetiu que acabou por se esquecer das canções de outrora. Não, não se esqueceu não... porque, quando dormia, ele se lembrava e ouvia a música antiga proibida que continuava a se cantar dentro dele. Mas quando ele acordava, se esquecia. Mas não de tudo. Ficava numa saudade indefinível. Saudade, ele não sabia bem de quê. Saudade que lhe dizia que ele estava longe, muito longe do lar...”

Este é o resumo da psicanálise, tal como eu a entendo. É uma estória em que se misturam o amor, a beleza e o feitiço do esquecimento. Decepcionaram-se? Esperavam nomes famosos, conceitos complicados – e ao invés disto eu conto uma estória de fadas. Palavras para fazer as crianças dormirem, dirão. Mas eu acrescento: é para fazer os adultos acordarem... A psicanálise é uma luta para quebrar o feitiço da palavra má que nos fez adormecer e esquecer a melodia bela. É um ouvir atento de uma canção que só se ouve no intervalo do silencio do coaxar dos sapos, e que nos chega como pequenos e fugazes fragmentos desconexos. É uma batalha para nos fazer retornar ao nosso destino, inscrito nas funduras do mar da alma.

Li os clássicos. Mas foi pela palavra dos anônimos contadores de estórias de encaminhamento e no encantamento da palavra dos poetas que a letra morta ficou coisa viva. Melhor do que eu, diz estes segredos do corpo e da alma, Fernando Pessoa. Leia estes versos. Mas leia devagar. Leia de novo. É do nosso mistério que ele fala. É nosso mistério que ele invoca:

Cessa o teu canto!
Cessa, que, enquanto o ouvi,
Ouvia uma outra voz
Como que vindo nos interstícios
Do brado encanto
Com que o teu canto vinha até nós.
Ouvi-te e ouvi-a
No mesmo tempo e diferentes
Juntas a cantar.
E a melodia que não havia se agora a lembro faz-me
Chorar.
E ele pergunta:
Foi tua voz encantamento que, sem querer, nesse momento
Vago acordou um ser qualquer alheio a nós que nos falou?
Será isto? Em nós mora um outro? Nos interstícios do coaxar, uma canção? Que outro é este?
Que anjo, ao ergueres a tua voz,
Sem o saberes
Veio baixar sobre esta terra onde a alma erra,
E com suas asas soprou as brasas de ignoto lar?
Mora em nós um outro que não se esquece da nossa verdade...

Alguns pensam que psicanálise e poesia são coisas de loucos. Tem até o ditado: De poeta e de louco todo mundo tem um pouco. Os sapos e as rãs, ao ouvirem as canções do príncipe poeta, só poderiam ter dito: É poeta! É louco! E trataram de curá-lo, educando-o para a realidade. Para eles ser normal é coaxar como todos coaxam. Mas a alma, em meio à ruidosa monotonia da vida, continua a ouvir uma voz que vem nos intervalos. Continua a ouvir a fala de um estranho que mora em nós, e que nos visita nos sonhos.

Continua a ser queimada pelas brasas da saudade de um lar esquecido, do qual estamos exilados.

É bem possível que os sapos e as rãs vivam mais tranqüilos. Para eles todas as questões já estão resolvidas.

Mas existe uma felicidade que só mora na beleza. E esta a gente só encontra na melodia que soa, esquecida e reprimida, no fundo da alma.

Rubem Alves é educador, psicanalista e escritor.

25.7.08

Vamos (nos) ler

Eu adoro ler. E posso testemunhar o que muita gente já testemunhou – a leitura pode fazer uma revolução na vida de alguém. Mas uma coisa venho pensado: depois de algumas leituras, após nos tornarmos um pouco mais críticos – por menor que seja nossa criticidade – já é hora de parar um pouco com as leituras externas e começar a ler a nós mesmos.

Não sugiro que deixemos de ler os bons livros. De modo algum. O que observo é que tem tanta gente obcecada por livros, pessoas que lêem tudo, e lêem de tudo, mas são totalmente incapazes de ler a si próprias – o que pode ser evidenciado no cotidiano de suas vidas, em seus relacionamentos...

A validade de nossas leituras só será verificada quando nós demonstrarmos que no decorrer da caminhada nossos olhos converteram sua direção de fora para dentro. Ter a capacidade de ler a si mesmo é ter a capacidade de pensar por si mesmo. Quem não consegue ler a si próprio se manterá escravo de idéias alheias, será como lagarta que nunca sai do casulo a fim de se tornar borboleta.

Somos o livro mais fascinante a ser lido. Com uma grande diferença em relação a todos os outros: podemos ser agentes ativos no processo de escrita. Ao lermos, ditamos os novos capítulos; e os que não ditamos, podemos mudar seu curso, inserir novos personagens, deixar outros para trás, e uma infinidade de coisas mais.

Ler é ótimo. No entanto, ler a si mesmo é ter consciência de quem se está sendo, é condição para ler o mundo em que se vive e, depois disso, escolher e caminhar nas trilhas oferecidas.

Boa leitura!

17.7.08

Quem poderá nos defender?

Consternação, raiva e medo é o que temos sentido ao receber as notícias pelos jornais. Há quase um ano e meio, toda a nação se chocou com ação de bandidos no Rio de Janeiro que culminou na morte cruel do menino João Hélio. Assistindo os noticiários nas últimas semanas, ficamos perplexos pela morte de mais um inocente – outra criança. Desta vez o menino João Roberto é que foi vítima da violência estúpida que tem afligido nosso povo.

Contudo, há uma grande diferença entre os dois casos. A primeira fora provocada por bandidos, a segunda fora resultado de uma desastrosa ação policial. As autoridades do Estado do Rio se manifestaram afirmando a ocasionalidade do fato. Asseveram que o comportamento dos policias em questão foi um fato isolado.

Poucos dias se passaram desde o ocorrido, e novamente somos surpreendidos por uma outra ação policial que terminou na morte de um refém. As imagens gravadas por uma emissora de televisão flagraram os policiais manejando os corpos baleados (mesmo o do refém) como carnes de frigorífico. Cena lamentável!

Não somos ignorantes o bastante para acreditar que estes casos são isolados. Não faz muito tempo soldados do Exército que ocupavam uma favela entregaram três jovens a um grupo de bandidos – eles foram exterminados. O que é raro, na verdade, sãos os vídeos dos flagrantes, raro mesmo é chegar ao público as notícias de cada caso ocorrido nos cantos escondidos deste Brasil. E estas agora chegaram...

Desligamos a televisão e ficamos com a sensação de que poderia ser um de nós, um dos nossos parentes ou amigos. Ninguém está a salvo, não há garantia de segurança. Aqueles que deveriam nos garantir segurança e paz são os que nos aviltam.

Até mesmo os criminosos possuem direitos. Até mesmo aos mais perversos devem ser resguardadas a integridade física e moral. O que estes policiais fazem com a vida humana não se faz nem com animais...

No ano em que a comunidade internacional comemora os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Brasil parece estar bem longe do que é ser uma sociedade que respeita o ser humano como um ser intrinsecamente digno de respeito.

Estamos atônitos!

13.7.08

Por uma visão infantil

Tenho muita pena das pessoas que não gostam de crianças. Não as culpo por tal postura, certamente há algo muito forte por trás disso. São pessoas impacientes, intolerantes, às vezes insensíveis... pessoas que tem dificuldade de aprender sobre a vida! Sim, sobre a vida! Sabe por quê? Elas pensam que não têm nada a aprender com os pequeninos. E eles muito podem nos ensinar sobre a vida.

Jesus não era assim, ele gostava das crianças. Certa vez, quando seus discípulos impediam que as criancinhas se achegassem a ele, repreendeu-os pegando uma delas no colo e dizendo: “Deixe que venham a mim estes pequeninos, pois deles é o Reino dos Céus. Quem não receber o Reino dos Céus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele”.

A bem da verdade, fico me perguntando o porquê desta afirmação. Por que Jesus se refere aos pequenos como já sendo possuidores do Reino dos Céus?... Não sei ao certo, soa a mim como algo misterioso. Mas considerando-se de quem veio a afirmativa, acho que vale a pena pensar sobre.

Assim sendo, devemos observar atentamente qualquer criança e tentar apreender delas tudo o que pudermos, para então aprender sobre o Reino dos Céus.

As crianças não diferem dos adultos apenas na idade e maturidade que os anos lhe conferem; talvez a principal diferença seja a forma com que vêem o mundo. Elas são recém-chegadas ao mundo, e como tais não negligenciam qualquer coisa que seja. Podendo alcançar um objeto, elas o miram, o tocam, apertam, e não resistindo o desejo de saboreá-lo, colocam na boca.

Não acho que o Senhor sugeriu que permanecêssemos ingênuos nem que não nos desenvolvêssemos rumo às responsabilidades da vida adulta. Na verdade, acho que ele falava de algo que ficou para trás e deve ser recuperado: a visão infantil. Não digo infantil no sentido de ignorante ou ingênua, mas no sentido de curiosidade humilde e entusiástica.

Passam os anos e pensamos conhecer tudo. Estudamos as montanhas, as árvores, os animais e os rios e acreditamos saber tudo sobre eles. Deixamos de apreciar as coisas do mundo logo que nos vem a idéia de que as conhecemos em plenitude. Grande mentira! Fazemos anatomia das coisas e nos esquecemos da beleza que possuiem. Deixamos de explorá-las no que há de mais interessante... Perdemos a magia do olhar!

Outra coisa, e essa é um truísmo: as crianças são puras. Não há maldade no coração dos meninos e meninas no jardim da infância. Alguns diriam que eles brigam entre si, que tomam os brinquedos uns dos outros – sem falar nas travessuras que aprontam quando se juntam em grupinhos. Sim, é verdade! Mas elas ainda não conhecem a maldade que permeia nossos corações. Não desejam o sofrimento atroz dos seus coleguinhas, não desprezam a alegria das coisas simples por se embebedarem com a ganância e nem trocam o afeto humano por coisas mortas (dinheiro, poder, status, etc.).

Outro dia um homem, juntamente com seu filho de sete anos, dirigia-se a um evento num conhecido Hotel de minha cidade. Ao chegar à entrada do estabelecimento, haveria de fazer o pagamento concernente à sua participação em tal reunião. Crianças com menos de sete anos não precisavam ser incluídas no pagamento. Sendo ele indagado a respeito da idade de seu filho, disse: “Seis anos, senhor!” Ao que seu filho, assustado, respondeu: “Seis, papai?... Tenho sete! O senhor se esqueceu?” E esse foi o dia em que aquele homem desejou ser um avestruz a fim de que tivesse a capacidade de esconder sua cabeça no primeiro buraco que encontrasse.

O final da história é que ele não continuou com a mentira e, ainda por cima, teve que assumir ao seu filho que estava errado, ensinando-lhe que não era certo mentir para tirar vantagem.

Para aquele menino, que ainda não fora moldado por nossa sociedade adoecida pela falta de ética, não havia a menor razão para dizer algo que não fosse a verdade.

Se formos realistas, admitiremos que há algo de infantil dentro de nós, há algo de criança travessa escondido bem no fundo de nossa alma, um desejo de descer do bonde desta vida maluca a qual nos rendemos e revistar lugares, rever coisas e pessoas para fazer uma releitura mágica da vida; uma revisitação que despertará sentimentos límpidos e saudáveis em nossos corações. Sentimentos sem os quais temos vivido numa sequidão de alma que tem nos privado de enxergar a beleza da vida!

Sim, o Reino dos Céus pertence aos pequeninos pois estes o vêem e vivenciam-no, ainda que sem consciência disso... Para eles, o Reino já é algo tão concreto quanto as atraentes pedrinhas brancas encontradas por debaixo de um montinho de terra no fundo de um quintal.